terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Penhasco

 "A última vez que eu tive uma queda por alguém..... 

                                            foi de um penhasco." 

A gente se gostava demais, mas por um motivo ou por outro, simplesmente não conseguíamos fazer dar certo. Era muita desconfiança envolvida. Foi nessa queda que eu aprendi que o amor e o ódio têm uma linha muito, muito tênue entre si, isto é, se é que há linha. Talvez eles sejam a mesma coisa em momentos diferentes. 

Ele não conseguia ser sincero consigo mesmo a respeito dos próprios sentimentos, imagine só se ele seria capaz de ser sincero comigo. E a lição que eu tirei disso é que, sem sinceridade, estamos fadados à decepção. Talvez você nem se decepcione com o outro, mas consigo mesma por ter esperado tanto e criado em sua imaginação um personagem, uma pessoa tão diferente daquela que existe na vida real. Ah, é, outra lição: o amor nos deixa cegos e esperançosos, como se houvesse milagre que consertasse tudo em um passe de mágica devido a uma oração bem feita, a um sentimento sincero ou a uma lágrima derramada...

Eu queria perguntar para ele como ele se sente sendo tudo aquilo que ele julgou e teve repulsa um dia, mas não consigo, o sentimento que predomina em mim é que ele se tornou um grande hipócrita e eu o achava tão inteligente e especial. Eu pus fé em nós. Eu pus fé nele. A minha decepção é, na verdade, comigo mesma, porque hoje ele sai por aí dizendo que eu sou louca e apegada demais a ele, quando ele já me disse explicitamente que não quer mais nada comigo. Mas nem sempre foi assim.

    Havíamos voltado de uma festa. Ele estava bêbado demais e eu também. A consciência já estava longe, mas não por isso nossos corpos haviam perdido o magnetismo em algum momento. Eu ainda não sei direito o que aconteceu naquela noite, porque ela não deveria ter acontecido, mas naquela época meu coração ainda batia. E forte. E por ele. Era tudo muito complicado para mim e para ele, mas tudo muito simples para qualquer um que visse a situação de fora. Infelizmente, eu era eu e não apenas uma expectadora. 

Estávamos nos desapegando, decididos a seguir em frente, ainda que sob o mesmo teto. Eu não devia mais satisfações para ele e nem ele para mim. O temido fim de uma história que não teria continuação. Naquele dia, minha alma abandonou meu corpo para não mais voltar.

Às vezes ainda cometíamos o erro de achar que uma hora as repetidas despedidas tornariam o processo menos doloroso, mas elas não tornavam. Eu fui idiota, mas sincera. Disse à ele que todas as vezes que eu tivesse uma chance de uma última vez, eu iria querer aproveitar. Não me lembro se cheguei a falar sobre amor ou algo do tipo, mas a minha promessa era apenas para aquele momento. Acho que ele não estava presente de alma naquele momento, ele apenas se deixou levar. 

E isso dói, quando você acorda. 

Mas de repente eu estava sentada no colo dele, beijando seu pescoço como se fosse a última coisa que eu fosse fazer em minha vida, tentando me convencer de que aquilo era uma péssima ideia e convencê-lo de que era uma boa. Ele me jogou num colchão que havia do lado do sofá em que estávamos. Acredito que talvez ele só quisesse acabar com aquilo logo, olhando bem para a situação agora, mas me beijou como alguém que se despede com desgosto, que sabe que tem que ir, mas que por algum motivo ainda quer ficar. Ele sabia que éramos insustentáveis, sabia muito mais do que eu jamais saberia - ou pelo menos, eu pensava assim. 

Nossos corpos já se conheciam, talvez por isso ele soubesse tão bem o que fazer. Pouca pausa e tentação, era o que nos definia. Ele brincou com meus pontos fracos com o prazer de me ter, pelo que eu me lembre, pela última vez. Estávamos nus. 

I'm not going to wait until you're done
(Eu não vou esperar até você acabar) 
Pretending you don't need anyone 
(de fingir que você não precisa de ninguém) 
I'm standing here naked
(Aqui estou, despida)
Minhas pernas foram parar apoiadas em seus ombros quando ele me penetrou pela vagina e eu agarrei suas costas como se pudéssemos nos tornar um. Não podíamos. Nossos corpos se moviam de maneira síncrona, proporcionando um inefável prazer, para mim, ao menos. Como eu já disse, eu nem sei se ele estava lá, de fato. Talvez só quisesse acabar logo com aquilo. 

Em pouco tempo meu corpo começou a se contorcer e se contrair no mais puro e pleno prazer. Eu gozei. E não sei o que dizer sobre ele, que saiu de cima de mim e se deitou ao meu lado.
Por fim, os bêbados dormiram, saciados na carne e insatisfeitos na alma. 

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